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sexta-feira, 9 de maio de 2014

SAÚDE DOS PVOS CIGANOS - A MULTICULTURALIDADE E O PROCESSO DE ADAPTAÇÃO À DOENÇA: ESTUDO DE CASO NA ETNIA CIGANA NUM SERVIÇO DE HEMATOLOGIA - PT





 Foto cedida por Bruno Gonçalvez - Portugal

A Multiculturalidade e o Processo de Adaptação à Doença: Estudo de caso na etnia cigana num serviço de Hematologia - PT


Autores: Catarina Ramos, Nuno Guerra, Paula Jorge, Susana Pedrosa, Rosa Romão.

CHLC-Hospital dos Capuchos, Serviço de Hematologia

Introdução: A multiculturalidade presente na sociedade de hoje coloca desafios permanentes aos profissionais de saúde. A vida em família cigana tece-se, na sua maioria, na filiação étnica que se estrutura em torno de um quadro de valores simbólicos e morais que dão corpo à sua vivência diária e que influencia o indivíduo cigano em qualquer circunstância da sua vida (SOUSA, 2001). Só se pode compreender aquilo que se conhece, daí a importância de se falar dos grupos de ciganos. A forma como se constitui a família, as suas relações, o casamento, a importância dos filhos no prestígio e no poder da família, a sua relação com a escola, com a doença e a hospitalização e com a morte são aspectos fundamentais para um melhor acolhimento dos membros desta comunidade na organização hospitalar (FERNANDES, 2000).


Segundo Pereira e Kinebanian (2007), as instituições de saúde portuguesas não se encontram adaptadas às necessidades apresentadas pelas pessoas de etnia cigana. Foi deste modo que a equipa abarcou este desafio para melhor identificar e delinear estratégias de actuação na nossa prática diária para melhor responder às necessidades e bem-estar do indivíduo cigano e sua família. Como base para este trabalho utilizou-se como objecto de estudo, um jovem adulto, sexo masculino, 18 anos de idade, com diagnóstico de Leucemia Linfoblástica Aguda, seguido no serviço de Hematologia desde 2006; possui o 6º ano de escolaridade, é parte integrante de uma comunidade numerosa, da qual pertence à hierarquia de líderes; casado, pai de uma filha de 2 anos.


Objectivos: Identificar as  necessidades de um doente de etnia cigana durante o internamento e no processo de adaptação à doença; Identificar as estratégias desenvolvidas pela equipa multidisciplinar e pelo doente/família durante o internamento e no processo de adaptação à doença.


Método: Análise retrospectiva dos sucessivos internamentos (20 no total) através dos registos clínicos efectuados do doente em estudo, desde o diagnóstico até Junho de 2007.


Resultados: A identificação das necessidades sentidas tornou necessária a definição de estratégias e o planeamento de intervenções diferenciadas a adoptar em conjunto com o doente/família. A representação social da doença é entendida como um castigo e punição de Deus que se abateu sobre toda a comunidade, que se mostra ansiosa e com preocupação constante. A necessidade da presença da sua família/comunidade tornou-se evidente e necessária para o bem-estar do doente, quer por aspectos culturais, quer pela reorganização de papéis a efectuar na mesma. A área de intervenção na prestação de cuidados foi alargada a toda a comunidade, nomeadamente através do alargamento do horário da visita e com contactos com o pastor evangélico, visto como protector da comunidade e um elemento capaz de apaziguar tensões existentes.

A adaptação à doença, inicialmente encarada com revolta e incompreensão, foi gradualmente sendo aceite e encarada com esperança no futuro.

A exposição do corpo reveste-se de vergonha e embaraço de acordo com o seu sistema de valores, dificultando por vezes uma correcta observação física ou a prestação de cuidados que impliquem a exposição/observação do corpo, nomeadamente nos cuidados de higiene. Uma maior privacidade, o acompanhamento mais próximo da esposa e o desenvolvimento de um clima de confiança, foram importantes para ultrapassar esta barreira.

As necessidades de introdução da dieta neutropénica e de recorrer a suporte transfusional são abordadas com desconfiança ao longo dos primeiros internamentos, verificando-se a tentativa de negociação recorrente por parte do doente. A integração do doente nos cuidados foi gradual, contribuindo a postura de empatia e de assertividade por parte dos profissionais, para o estabelecimento de um clima de confiança entre ambos, que possibilitou a prestação de cuidados inerentes ao seu estado/necessidades. 


Conclusões: O melhor conhecimento da cultura cigana, por parte da equipa, permitiu uma melhor percepção dos problemas sentidos pelo doente e sua comunidade. As estratégias utilizadas pelos profissionais para facilitar a adesão ao tratamento e ao processo de internamento/adaptação à doença passaram pelo envolvimento de toda a comunidade, levando a uma melhor adequação dos cuidados e uma progressiva integração da mesma. A intervenção teve como base a comunicação, o respeito, a perseverança, a assertividade e a empatia através dos cuidados centrados no doente e na sua família. Foi desta forma visível, e sentido diariamente pela equipa, o desafio de compreender e adequar as respostas através da adaptação, planeamento, execução e avaliação dos cuidados prestados, numa perspectiva de enfermagem intercultural.


Bibliografia:

FERNANDES, João José Santos – O doente de etnia cigana: uma visão dos enfermeiros – Lisboa: 2000 – 245 f.

MACHADO, Paulo – A etnia cigana em Portugal, Janus, Lisboa 2001

PEREIRA, Eugénia & Astrid KINEBANIAN -  Intervir com Pessoas de Etnia Cigana – Experiências de Terapeutas Ocupacionais, Lisboa 2007

SOUSA, Carlos Jorge – Um olhar cúmplice, Políticas Educativas: o caso da etnicidade cigana, Secretariado Entreculturas, Lisboa 2001

União Europeia; Guia de intervenção com a Comunidade Cigana nos Serviços de Saúde (trad. port.), Fundación Secretariado Gitano, Madrid 2007


Postado por AMSK/Brasil
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