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quarta-feira, 23 de maio de 2012

SAÚDE DOS POVOS ROMANI




SAÚDE DOS POVOS ROMANI


Saúde da população romani/Brasil
Uma realidade Brasileira e mundial



Verdade seja dita: a grande diversidade entre as etnias da grande Rromá e a variável demonstrada entre as ações efetivas governamentais e a identificação dos Rromá enquanto povo e minoria, dentro do circuito nacional/operacional chamado saúde, é lento e ou inoperante. Essa não é uma realidade apenas do Brasil, essa realidade histórica, por assim dizer, continua ocorrendo em várias partes do mundo.  Essa variável de informação sem dados específicos se aplica a quase todos os países, com raras e honrosas exceções.

A Organização Mundial de Saúde define a saúde como "um estado de completo desenvolvimento físico, mental e bem-estar social, [...] não apenas a ausência de doença ou enfermidade [...] o gozo do mais alto padrão atingível de saúde é um dos direitos fundamentais de todo ser humano sem distinção de raça, religião, convicção política, condição econômica ou social”.

O que temos atualmente são equívocos institucionais e desconhecimento popular sobre o que determina a saúde dos Rromá.  A falta de dados e a ação desigual na coleta dos mesmos criam um entrave que só poderá ser superado a partir do reconhecimento da importância da geração de conhecimento específico sobre o povo rromani. Uma ação desta natureza é determinante para que a política pública de saúde seja efetivamente aplicada.

Primeiramente, precisamos conhecer a desigualdade e precisamos assumir que o desconhecimento gera a negação de sua existência, contribuindo para fortalecer padrões discriminatórios. Sendo assim, precisamos gerar conhecimento sobre este povo, inserir este conhecimento nas dinâmicas da gestão pública e traduzi-lo em políticas públicas adequadas e capazes de promover o reconhecimento do cidadão romani e de sua etnia. Toda essa discussão inclui também a questão do diálogo limitado entre políticos e população/sociedade em geral, que tem como conseqüência a negação das influências sociais que moldam a saúde de todos os seres humanos, incluindo os Rromá. Essa prática se torna uma característica definidora de respostas oficiais para a saúde e o bem estar de todas as minorias no que chamamos mundo desenvolvido.

Essas lacunas com relação às políticas públicas para a saúde dos Rromá e da população mais carente em geral – em contraposição à sociedade majoritária – reflete e visibiliza a desigualdade política, econômica e social. A isso podemos chamar de discriminação institucional, um elemento que contribui fortemente para a exclusão social.

Garantir o direito à saúde inclui respeitar a multiculturalidade, no sentido de mostrar à sociedade majoritária estilos de vida diferentes e suas respectivas vantagens. Os Rromá possuem um senso familiar bastante apurado e uma definição própria no que diz respeito à manutenção de sua própria identidade. Para que isso se mantenha, fazem uso da oralidade e a partir desta, se comunicam e mantêm vivas as suas tradições. A estrutura visual, para os Rromá, é um ponto importante na comunicação de assuntos referente à saúde, como epidemias, doenças sexualmente transmissíveis e cuidados básicos. É necessária a atenção dos meios de comunicação com relação a isso.  É preciso a atenção de todos aqueles que enxergam esta realidade, a fim de que possamos avançar em direção a uma realidade mais igualitária. A igualdade é um princípio básico, estabelecido com clareza na Constituição Federal do Brasil, e este princípio se aplica aos órgãos responsáveis pelo cuidado da população em geral, que deve ser livre de todo tipo de discriminação.

                                             Photo: Scanpix.

 Family Mundeling, family Benneweiz and family Miehe are all traveller families. Like most travellers, the first of the families emigrated from Germany.

Precisamos criar contextos que nos levem a respeitar, reorganizar e criar estruturas efetivas de ajuda, levando em conta os milênios de sabedoria dos Rromá e sua estrutura interna social de convívio. Toda e qualquer ação coletiva, como a promoção da formação de agentes de saúde na própria comunidade é de extrema importância. Gerando conhecimentos e aprendendo com práticas milenares de medicina tradicional rromani.



O Brasil define seu sistema de saúde a partir da noção de atendimento universal, livre de qualquer discriminação. Isso significa que qualquer pessoa, independente da condição social, raça, cor ou etnia, incluindo os estrangeiros, deve ser atendida pelos serviços de saúde – fato este que revela um contexto único da valorização da vida humana. Entretanto, perpetua-se uma situação de despreparo educacional da rede de assistência, que inclui desde os médicos até os atendentes e auxiliares. Por esse motivo básico, os Rromá, por não fazerem parte do grupo de interesse, sofrem com a falta de estatísticas dos órgãos assessoriais.

Comungamos da idéia de que a educação deve ser o carro chefe, deve estar na linha de frente de uma batalha humanista e de extrema necessidade, afim de não revivermos o legado deixado pelas guerras e o espólio das mesmas, como claramente se vê hoje em países do leste europeu. Comungamos a idéia de que órgãos governamentais que direcionam suas atividades em prol do combate efetivo da discriminação e o preconceito devam trabalhar de forma a dar o direcionamento para que tenhamos um país mais justo e igualitário.

A luz do conhecimento é capaz de esclarecer que não são necessários postos de atendimentos especiais, mas sim superar o preconceito e a discriminação de forma a garantir que a comunidade Rromá possa ser atendida e possa contar com a assistência efetiva dos agentes comunitários de saúde que hoje, no Brasil, formam uma força tarefa de suma importância.

A ausência de dados nos sinaliza a clara distância existente entre a realidade atual da comunidade Rromá e a sua participação efetiva como cidadãos e cidadãs brasileiros. Visibilizar essa minoria, tanto no Brasil, quanto na América Latina, compõe o quadro básico de assistência à saúde integral do ser humano.

                     Blushøj camp. Photo: Copenhagen Municipality

 Blushøj camp was located in one of Copenhagen's peripheral areas in Valby. The caravan park was established by the City of Copenhagen in 1948, when travellers found it difficult to find places to park their caravans. The caravan park was closed in 1962.

Condições de saúde devem incluir: estruturas de moradia, direito à alimentação, saneamento básico e acesso ao trabalho e a um meio ambiente digno. Precisamos assegurar o direito à vida em toda a sua plenitude, acima da herança de perseguição e de preconceito que recai sobre o povo Rromá desde sempre e em todos os continentes. [artigo 12.2 PIDESC].

Que sejamos nós da América Latina a acolher os nossos no conteúdo do direito à saúde, para que sejamos reconhecidos internacionalmente como os que venceram a barreira da ignorância e da discriminação.

 A Romany woman cooks dinner in an iron pot hung over an open fire at the Corkes Meadow encampment in Kent, July 1951.

As mulheres Rromá se apresentam como as transmissoras da educação e da cultura, e é para elas que nossos olhos se voltam, com carinho e com a vontade de ver crescer a atenção especial a elas, vítimas de preconceito em todas as suas atividades, sejam culturais ou sociais. Esse lugar é legítimo e deve ser visto e reconhecido, como fonte de promoção da saúde e da melhoria de qualidade de vida. As mulheres ciganas no mundo ainda não têm rosto.  Mas precisam ter – precisamos de dados para combater a discriminação, os números são os aliados da verdade e da política pública acertada, justa e humanista. Esta é uma noção reconhecida internacionalmente e explicitada em importantes tratados internacionais como: a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres (artigos 10, 12, 16) - Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial (artigo 5).

AMSK/Brasil – Associação Internacional Maylê Sara Kalí


Brasília, 21 de maio de 2012.
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