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Violência contra as mulheres ciganas: um racismo esquecido




(Encontro de alunos, professores da UNB, UFPA, Defensoria Pública do Paraná, Membros da AMSK, além de Pesquisadores e estudiosos, reunidos na Universidade de Brasília, convidadas pelo Departamento de Saúde - Saúde coletiva, para debater o assunto do racismo e da discriminação contra as mulheres ciganas -  foto AMSK/Brasil). A autora do artigo, Priscila Paz Godoy, Jamily Cunha (Federal da Paraíba) e Camille Costa DPU do Paraná e Lucimara Cavalcante da AMSK foram as debatedoras desse encontro.

No dia 10 de Novembro, no Conselho Nacional de Saúde am Brasília, o Ministério da Saúde (DAGEP) e a AMSK/Brasil lançam  o documento "Subsídios para o cuidado á saúde do Povo Cigano" - um documento orientador no combate a discriminação, o preconceito e a ignorância sobre o tema. O documento deve nortear os profissionais da área de saúde no atendimento a essa parcela da população. 

AMSK/Brasil



Sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Violência contra as mulheres ciganas: um racismo esquecido

leia aqui

Este artigo faz parte da iniciativa “16 dias de ativismo” do Comitê Latino Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos das Mulheres (CLADEM Brasil). 

Falar sobre violência contra as mulheres ciganas é, sobretudo, falar sobre o racismo, mas um racismo esquecido e negligenciado, que emana das relações de poder e das práticas coloniais. Os dados são exíguos e quase inexistem pesquisas sobre o assunto.
No Brasil, calcula-se que a população cigana seja de aproximadamente mais de meio milhão, conforme divulgação da outrora Secretaria de Promoção e Políticas de Igualdade Racial (SEPPIR). Mesmo com essa significativa população, quando se fala em minorias, ninguém se lembra dos assim chamados “ciganos”[1]. Inexistem pesquisas oficiais e detalhadas sobre a população cigana. Partindo dos dados aportados pela Comissão Europeia (2011), mas contrastados com o informe de Jean-Pierre Liégois e Nicole Gheorghe e com o critério de Sérgio Rodríguez (2011, pp. 72-74)[2], foi construída uma tabela para ilustrar a distribuição geográfica da população “cigana” no mundo. De acordo com essa tabela, o Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial com uma população estimada em 1.000.000 (um milhão) de ciganos[3], sendo ultrapassada pela Romênia que conta com uma população de 1.850.000 (um milhão, oitocentos e cinquenta mil) ciganos.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE),  que é o órgão responsável pelo censo demográfico, no Brasil, não realiza a pesquisa censitária dos assim chamados “ciganos”. Um estudo da Associação Internacional Maylê Sara Kali (AMSK/Brasil) demonstra que os dados gerados pela Pesquisa de Informações Básicas Municipais (MUNIC), realizado pelo IBGE, atingem apenas os ciganos de barraca, sem distingui-los em itinerantes ou fixos. No ano de 2014, a MUNIC identificou 337 municípios com a presença de setenta e três acampamentos ciganos, localizados em áreas públicas destinadas para esta finalidade. A despeito de sua importância, os dados históricos produzidos tendem a ser distorcidos pela visão etnocêntrica e racista[4]. A Constituição Federal de 1988 não faz menção expressa aos ciganos que, somente a partir de 1993, passaram a constar de documentos governamentais[5]. Em 24 de maio de 2006, o Governo Federal instituiu o Dia Nacional do Cigano. Essa data comemorativa, inscrita no calendário oficial, é parte de uma série de medidas destinadas especificamente ao povo cigano.
Inobstante numerosa, as comunidades ciganas no Brasil são desprezadas pelo poder público brasileiro e, por consequência, sofrem com o baixo acesso à educação, saúde e participação política, sendo frequentemente alvo de estereótipos e preconceitos, inclusive pela mídia.
Às mulheres ciganas são atribuídos os mais variados rótulos racistas, como trapaceiras (no Brasil, desde Gil Vicente, em a Farsa das Ciganas[6]), sujas, ladras e sedutoras. Uma raça de degeneradas. A leitura de raça aqui, portanto, se define como uma emergência histórica, porque é adversa a toda fixação biologicista e a toda possibilidade de essencialismo, e opera como uma emanação das relações de poder (SEGATO, 2010, p. 32). Assim, é premente que falemos sobre a violência contra as mulheres ciganas, sobre o racismo, mas um racismo esquecido. Evidentemente, seja como for, na gestão dos estereótipos, a cigana representa os ciganos na totalidade.
Ainda, segundo Rezende (2000, p. 105)[7], “várias foram as tentativas feitas no sentido de assimilar ou exterminar a “raça” cigana”, uma “raça degenerada”: assimilar seus indivíduos, “desfazendo” seus traços genéticos e seus costumes entre a população “saudável”; ou o extermínio completo, eliminando qualquer herança genética.
Contudo, sem dúvida, as piores políticas empreendidas contra os ciganos foram a de exterminação como ocorreu, por exemplo, na Alemanha nazista. As autoridades alemãs se convenceram da tarefa de exterminação da “raça” cigana, com base nas antigas teorias e estereótipos criados e reproduzidos. Bem antes dos judeus, em 1933, as mulheres ciganas começam a ser esterilizadas.
Depois da II Guerra Mundial, apesar da morte estimada entre 220 mil a 1,5 milhão de ciganos[8], algumas políticas desastrosas continuaram sendo empregadas em diversos países da Europa, sob o pretexto de se utilizarem de estudos e métodos científicos no “controle” dos grupos ciganos. Assim, por exemplo, ao longo do século passado, a Suécia esterilizou, perseguiu, retirou crianças de suas famílias e proibiu a entrada no país dos ciganos; e as pessoas dessa minoria étnica foram tratadas durante décadas pelo Estado como “incapacitados sociais”. […] Os abusos históricos, assinala o Livro Branco, seguiram um padrão criado há séculos pelas monarquias europeias: começaram com os censos que elaboraram organismos oficiais como o Instituto para Biologia Racial ou a Comissão para a Saúde e o Bem-estar, que identificaram os ciganos que viviam no país. Os primeiros documentos oficiais descreviam os ciganos como “grupos indesejáveis para a sociedade” e como “uma carga”. Entre 1934 e 1974, o Estado prescreveu às mulheres ciganas a esterilização apelando ao “interesse das políticas de população”, como fez Austrália com os aborígenes. Não há cifras de vítimas, mas no Ministério de Integração explicam que uma em cada quatro famílias consultadas conhece algum caso de abortos forçados e esterilização. Os órgãos oficiais ficaram com a custódia de crianças ciganas que foram arrancadas de suas famílias.
No Brasil, conforme inicialmente observado, as pesquisas sobre o assunto, violência contra as mulheres ciganas, são praticamente inexistentes. Sabe-se, tão-somente, que as mulheres ciganas são vítimas corriqueiramente de racismo, mas de um racismo esquecido pelo poder público e pela sociedade. De outra sorte, sabe-se, igualmente, que manipulam a sua in(visibilidade), nos espaços públicos, como uma estratégia de sobrevivência. Praticam o comércio, por exemplo, sem sua indumentária tradicional.
De acordo com o documento divulgado em março de 2016, pela relatora especial das Nações Unidas para minorias, Rita Izsák, as mulheres do povo Rom[9] sofrem maior discriminação, porque são facilmente identificadas por sua indumentária tradicional, muitas dessas mulheres se veem privadas de seus direitos mais básicos. Esse mesmo documento recomenda a criação de leis anti-discriminação e medidas afirmativas para endereçar a falta de acesso à educação, saúde, habitação, emprego, redução da pobreza, acesso à Justiça entre outros.
Ainda, para a presidenta da AMSK/Brasil, Elisa Cavalcanti, é preciso que se saiba que os ciganos, mas, sobretudo, as ciganas têm seus direitos desrespeitados cotidianamente como, por exemplo, o acesso ao serviço médico dificultado[10]. Outra questão relevante apontada por Elisa é a negativa na concessão de habeas corpus sob o argumento de que o cigano, via de regra, não tem residência fixa.
Segundo noticiado pelo Correio Braziliense, em 13 de março de 2015, o Ministério Público Federal investiga um suposto caso de violência policial,  durante uma abordagem para apreensão de armas, em uma comunidade cigana, próxima a Sobradinho/DF. Os moradores denunciaram que 39 Policiais Militares da Rotam entraram com bombas de efeito moral, sem mandado judicial, na chácara ocupada por aproximadamente 50 pessoas, e cometeram uma série de outras irregularidades, como revista íntima em mulheres sem policial feminina na equipe.
Não à toa, o documento da relatora especial das Nações Unidas indica em suas recomendações que se reconheçam os ciganos como uma minoria distinta, para que possam assim exercer plenamente seus direitos humanos, e que os Estados investiguem de forma apropriada quaisquer crimes contra os ciganos e suas comunidades, inclusive iniciativas de discriminação. Não há, no entanto, nenhuma recomendação que vise, especificamente, a promoção e a defesa dos direitos humanos no que toca à violência contra as mulheres ciganas. É preciso falar sobre a violência contra as mulheres ciganas; é preciso falar sobre esse racismo esquecido! Na gestão dos estereótipos a mulher cigana representa os ciganos na integralidade.
Priscila Paz Godoy é Mestra em Direitos Humanos e Cidadania pelo Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania da Universidade de Brasília (PPGDH/UnB) e graduada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie. Atua como advogada e parceira da Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK/Brasil).

[1] Faço uso da expressão “os assim chamados ‘ciganos’” para designar o rótulo da palavra “cigano” atribuído pelo outro, “não cigano”.
[2] RODRÍGUES, S. Gitanidad: Outra manera de ver el mondo. Barcelona: Editorial Kairós, 2011.
[3] O termo “cigano” aqui é usado para se referir a grupos heterogêneos, que vivem em diferentes países e sob diversas condições sociais, econômicas e culturais, mas unidos por raízes históricas e linguísticas comuns, conforme relatório da ONU, disponível em:https://nacoesunidas.org/comunidade-cigana-brasileira-sofre-com-preconceitos-e-restricao-de-direitos-diz-relatora-da-onu/. Acesso em: 06 dez. 2016.
[4] No Brasil, o Senado Federal tem em seu arquivo histórico o Decreto nº. 3.010, assinado pelo então Presidente Getúlio Vargas em 1.938, um ano após a instalação do Estado Novo. A norma restringia a entrada de estrangeiros no país e impedia que “indigentes, vagabundos, ciganos e congêneres” ingressassem em território brasileiro.
[5] O art. 2º da Resolução nº 6, de 16 de dezembro de 1993, do Conselho Superior do Ministério Público Federal criou a 6ª Câmara de Coordenação e Revisão dos Direitos das Comunidades Indígenas e Minorias, incluindo-se as “comunidades negras isoladas” (antigos quilombos) e as minorias ciganas.
[6] No Brasil, desde o século XV, a palavra “cigano” é utilizada como um insulto (FRASER, 1992, p. 48). O termo aparece registrado, pela primeira vez, em português, provavelmente em 1521, emA farsa das ciganas, de Gil Vicente (TEIXEIRA, 2008, p. 09).
[7] REZENDE, D. F. de A. Transnacionalismo e Etnicidade – A Contrução Simbólica do Romanesthàn (Nação Cigana). 2000. Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte/MG, 2000.
[8] Conforme “Genocide of European Roma (Gypsies)”. In: Holocaust EncyclopediaUnited States Holocaust Memorial Museum. Retrieved September 27, 2012. The USHMM places the scholarly estimates at 220,000–500,000. According to Berenbaum 2005, p. 126, “serious scholars estimate that between 90,000 and 220,000 were killed under German rule”; e Hancock, 2004, pp. 383–96.
[9] Conforme Teixeira (2008, p. 10), Rom, substantivo singular masculino, significa homem e, em determinados contextos, marido; plural Roma; feminino Romni Romnia. O adjetivoromani é empregado tanto para a língua quanto para a cultura.
[10] Subsídios para o cuidado à Saúde do Povo Cigano, disponível em:http://portalsaude.saude.gov.br/images/pdf/2016/novembro/10/Sa—de-Povo-Ciganos.pdf

SOBRE O AUTOR

Priscila Paz Godoy
Priscila Paz Godoy
É Mestra em Direitos Humanos e Cidadania pelo Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania da Universidade de Brasília (PPGDH/UnB) e graduada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Mackenzie. Atua como advogada e parceira da Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK/Brasil).



AMSK PARTICIPA DO XIV ENAM – ENCONTRO NACIONAL DE ALEITAMENTO MATERNO


A IBFAN (Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar - International Baby Food Action Network) promoveu nos dias 22 a 25 de novembro o XIV ENAM – Encontro Nacional de Aleitamento Materno, e o IV ENACS – Encontro Nacional de Alimentação Complementar Saudável, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis – SC.

A organização do evento pela primeira vez oportuniza a uma mulher romani (cigana) apresentar suas práticas e informações sobre os cuidados na amamentação.

A Romi Kaldarash, Elisabete Martinho, representante da AMSK/Brasil, no dia 24 de novembro, proferiu palestra na Roda de Conversa 4 - Amamentar no contexto étnico-racial promovendo a reflexão do público sobre seus saberes e práticas de amamentação, e também sobre a história e a realidade de vida de muitas mulheres no enfrentamento as violações de direitos humanos. 




A AMSK/Brasil agradece a coordenadora do evento, Evangelia Kotzias Santos, e a todas e todos que trabalharam pela promoção e oportunidade do intercâmbio e da difusão de conhecimento e dos saberes da mulher romani (cigana).

Saiba mais... Acesse http://www.enam.org.br/


SGEP/MS LANÇA CARTILHA: SUBSÍDIOS PARA O CUIDADO À SAÚDE DO POVO CIGANO







É preciso conhecer antes de julgar, somos muitos,
Somos de diferentes etnias.
Nossa cultura e nossa tradição estão morrendo e precisamos de ajuda.
Estamos em todos os estados do território Nacional e Distrito Federal.
O mais difícil é que permanecemos entregues a nossa própria sorte.

Mio Vacite – Violinista e músico, cidadão brasileiro Rom Horaranô







A Secretaria de Gestão Estratégia e Participativa do Ministério da Saúde (SGEP/MS) lançou no dia 10 de novembro de 2016, a cartilha Subsídios para o Cuidado à Saúde do Povo Cigano. O lançamento aconteceu durante a 287ª Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde (CNS) e contou com a participação da presidente da AMSK/Brasil, Elisa Costa, do diretor do Departamento de Apoio à Gestão Participativa – DAGEP, Esdras Daniel Pereira, e do presidente do CNS, Ronald Ferreira dos Santos.

Elaborada pelo Departamento de Apoio à Gestão Participativa (DAGEP) da SGEP, em parceria com a Associação Internacional Maylê Sara Kalí (AMSK), fruto do trabalho realizado como desdobramento do resultado do evento Brasil Cigano: Primeira Semana Nacional dos Povos Ciganos, promovido nos dias 21 a 24 de maio de 2013, em Brasília – DF, coordenado pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República (SEPPIR/PR).

O documento foi elaborado pela necessidade de gerar conhecimento para o conjunto dos trabalhadores de saúde – gestores de políticas públicas, agentes comunitários de saúde, médicos, enfermeiros e demais profissionais que atuam no atendimento nos serviços de saúde – sobre a história dos povos ciganos, as dinâmicas de discriminação, preconceito e racismo institucional que criam obstáculos ao acesso deste segmento da população aos serviços de saúde, as situações de riscos ambientais que assolam a saúde dessa parcela da população brasileira, as necessidades das mulheres e dos homens de etnia cigana para o atendimento nos hospitais e nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), a importância da promoção à atenção básica de saúde da família nessas comunidades, e os marcos legais nacionais.

A AMSK/Brasil agradece ao Departamento de Apoio à Gestão Participativa - DAGEP, da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa - SGEP/MS, pela parceria na realização dos estudos e pesquisas pautados na realidade de vida da população romani do Brasil. E pelo empenho no desenvolvimento de ações afirmativas de Políticas de Promoção da Equidade em Saúde que promove o respeito a população romani, com o lançamento do primeiro documento oficial do Ministério da Saúde que reconhece o Povo Romani como sujeitos de direitos.

Saiba mais...







POVOS CIGANOS: UMA NAÇÃO SEM FRONTEIRAS"

Publicação na Revista da saúde da família, onde cada dia mais, a realidade desses homens e mulheres, esquecidos pelo tempo, pela discriminação e pelo abandono, começa a escrever e ensaiar seus passos.

A foto foi tirada na região sul do país, dando nos a certeza da distribuição das ações, o cartaz foi lançado pelo MS no ano de 2015. 

Segue o link para baixar a revista 38:
na página 49 tem a matéria com o título : “Povos Ciganos: uma nação sem fronteiras”.

Caso o link não abra, vocês podem acessar pela página da revista

Homeopatas dos Pés Descalços
Um projeto da AMSK/Brasil

Latchim Sastipen (Boa Saúde)

Latchim Sastipen (Boa Saúde)

O trabalho desenvolvido por ciganos e ciganas em Portugal; falando aqui da Associação Letras Nômadas, nas pessoas de sua Presidente Olga Mariano e Bruno Gonçalves – vice presidente, nos enche de alegria, esperança e renova nossas forças. Portugal está em boas mãos com sua pesquisa.
Sabemos de pronto que a saúde de nossos ciganos e ciganas no mundo todo é bastante precária e debilitada, com a exceção dos que podem pagar por um plano de saúde, dos que possuem a consciência da prevenção e serviços oferecidos e dos riscos que se corre pelos anos e anos de negação e preconceito com o Povo Cigano e sua aceitação nos programas de governo.

Em Portugal esse processo já começou a andar e seguem dois vídeos sobre o assunto.

Segue o vídeo da romed saúde.


No Brasil, seguimos avançando em pontos primordiais, como a Portaria 940 do MS e também alguns assuntos relacionados que começam a voltar suas atenções para esse recorte chamado Minoria étnica no Brasil: O Povo Romani – os assim chamados ciganos.
Por cá fazemos referência a alguns trabalhos como:
*Saúde e Cidadania dos Povos de etnia Romani no Brasil – Os assim chamados ciganos. Mimeo 2015.

* COSTA, Elisa. Redução das Desigualdades em Saúde nas Comunidades Ciganas no Brasil: subsídios para discussão. ISBN: 978-85-67708-01-0; Brasília: AMSK/Brasil, 2014.
* GUIMARÃES, José Ribeiro Sousa. Perfil do Trabalho Decente no Brasil: um olhar sobre as Unidades da Federação. Brasília: OIT, 2012.
* OMS. Constituición de la Organización Mundial de Salud. Documentos Básicos, suplemento da 45ª Sessão, octubre, 2006. Disponível em: http://www.who.int/governance/eb/who_constitution_sp.pdf
* MOTA, Ático Frota Vilas-Boas. Ciganos: antologia de ensaios. Brasília: Ed. Thesauros, 2004
* AMSK/BRASIL. Relatório SASTIPEN – SAÚDE II. Brasília: mimeo, 2012.
*GOLDFARB, Maria Patrícia Lopes; LEANDRO, Suderlan Sabino; DIAS, Maria Djair. O “cuidar” entre as calins: concepções de gestação, parto e nascimento entre as ciganas residentes em Sousa-PB. Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 11, n. 33, dez. 2012, pp. 851-877.
*LEANDRO, Suderlan Sabino. Práticas do enfermeiro em uma comunidade cigana: relato de experiência. Revista Temas em Saúde, ano 6, n. 8, 2006.

Dentre outros trabalhos dos quais já citamos.Bom, o que falamos aqui, se refere a uma constatação ainda precária no Brasil, das reais condições de saúde desse povo, de como isso se relaciona com toda uma forma cultural e educacional.
De qualquer forma, temos de de nos alinhar nesse trabalho como forma de uma possível ajuda. Temos a condição quantitativa; bastante diferente dos ciganos de Portugal, os braços dessa etnia também e pra completar, temos um SUS, que na teoria é fantástico, mas na prática ainda sofre com inúmeros pontos a serem seguidos e implementados.

Um deles está diretamente relacionado a esse trabalho de Portugal, por aqui a média de vida dos ciganos é visivelmente menor, mas ainda não conseguimos quantificar isso. Outro fator é que a falta de identificação ou d coleta dessa identificação nos hospitais e atendimentos, nos impossibilita saber quantos procuram, onde procuram e porquais motivos.
Ainda nos falta dar números assertivos para uma política pública direta e pontual. Enquanto isso, a AMSK começou um trabalho com as mulheres de etnia rromani e as conclusões ainda demorem um pouco pra sair, mas esse estudo já nos revela alguns dados muito interessantes:

MULHERES DE ETNIA RROMANI
A MULHER “CIGANA” NO CONTEXTO BRASIL
Rostos e identidades (MIMEO).
(Parcial)

No Brasil ainda não existem dados específicos sobre o tema, por isso trouxemos um estudo da AMSK/Brasil em andamento desde agosto de 2013. No Brasil (em andamento em 9 estados, mais o Distrito Federal) e com seus correspondentes em Portugal – por área de pesquisa e migração.

Neste estudo, levamos em conta cerca de 20 pontos norteadores (pergunta e resposta), busca ativa, abordagem direta e indireta, denúncias, visitas in locuo, pedidos de escuta e rodas de conversa.

Para esse estudo também foram observados:
1] o direito de se identificarem de forma legítima, (sem folclore ou estereótipo)
2] de manterem o segredo de sua identificação,
3] e de se colocarem livremente como sujeitos de direito.
As áreas pesquisadas foram SAÚDE, EDUCAÇÃO e GENERALIDADES. Aqui um pequeno esboço sobre SAÚDE dessas mulheres.

Saúde
a)     Geralmente estão afastadas do sistema de saúde convencional (seja por não alcançarem o SUS, ou por não estarem dentro do sistema “preventivo de cuidados “)
b)    O câncer de mama ou de colo de útero, o câncer de pele e a depressão (com seus desdobramentos), são os itens mais assinalados. Pressão alta, doenças circulatórias, tabagismo e alcoolismo/droga, seguem a lista.
c)     Geralmente trabalham os três turnos – (acumulando as funções de esposa, da casa e do trabalho).

De 2013 á 2015, a AMSK/Brasil conseguiu com que vários Homens / chefes de comunidade, líderes de núcleos familiares; que começassem uma conversa para a não violência contra a Mulher dentro dos seus núcleos, acampamentos e casas.
Os casos de violência vem sido analisados com cautela, visto as inúmeras e falsa relatorias, analisadas por nossa equipe, que chegam de mulheres que não pertencem a etnia, mas que encontraram nesse modo de vida uma forma vantajosa de sobrevivência. Isso pode ser analisado pela total falta de conteúdo, quando comparado a entrevista com mulheres que pertencem a grandes comunidades e que independentemente de onde estão, são sempre similares ou se encontram dentro de uma mesma análise de pensamento comunitário.
Pretendemos alcançar o número de mil mulheres e com isso, ampliarmos e catalogarmos as principais queixas e necessidades dessas mulheres, a fim de construirmos políticas públicas que venham a beneficiar verdadeiramente esse recorte étnico.
HOMEOPATAS DOS PÉS DESCALÇOS, um programa da AMSK/Brasil.


Mulheres ciganas: medo, relações intergrupais e confrontos identitários - Gypsy Women: Fear, intergroup relations and identity conflicts



Mulheres ciganas: medo, relações
intergrupais e confrontos identitários
Gypsy Women: Fear, intergroup relations and identity conflicts
Recibido: junio 6 de 2009 Revisado: noviembre 24 de 2009 Aceptado: junio 15 de 2010

Mariana Bonomo *
Lídio de Souza
Z eidi Araujo Trindade
Fabiana Davel Canal
J ulia Alves Brasil
A ndré Mota do Livramento
A na Paula da Silva Milani Patrocínio
Centro de Ciências Humanas e Naturais,
Universidade Federal do Espírito Santo, Brasil

Abstract

Through the Theory of Social Identity our objective was to know the stereotypes present in the rural imaginary related to the gypsy group, and the feelings associated with this ethnic group. Ten women, non-gypsies, residents of a rural Brazilian community, participated in this study. We analyzed the data through the Alceste software. The analysis of the information obtained has allowed us to identify the feeling of fear as the main mediator of practices related to the gypsies, confirming characteristics widely present in the social imaginary about this ethnic group. There are present the classic stereotypes of thieves, criminals and the cursed. It discusses the dynamics of identity provoked by the conflict between the rural community and the gypsies, emphasizing the processes that guide the field of identification and differentiation in/out-group.
Key words authors
Exclusion, social identity, fear, gypsy woman, rural woman.
Key words plus
Culture, cultural studies, social movements, social psychology.



R e s u m o

Através da Teoria da Identidade Social procurou-se conhecer os estereótipos presentes no imaginário rural associados ao grupo cigano, bem como os sentimentos associados a esta etnia. Foram entrevistadas 10 mulheres não-ciganas, moradoras de uma comunidade rural brasileira. Realizou-se a organização dos dados através do software Alceste. A análise das informações nos permitiu identificar o sentimento de medo como importante orientador das práticas relacionadas aos ciganos, confirmando características presentes no imaginário social amplamente difundido acerca desta etnia.
Estão presentes os clássicos estereótipos de ladrões, malfeitores e amaldiçoados. Discute-se a dinâmica identitária provocada pelo conflito entre a comunidade rural e os ciganos, enfatizando os processos que orientam o campo de identificação e diferenciação endo/exogrupal.
Palavras-chave autores
Exclusão, identidade social, medo, mulher cigana, mulher rural.
Palavras-chave plus
Cultura, estudios culturales, movimientos sociales, psicología social.
* Rede de Estudos e Pesquisas em Psicologia Social
(RedePso), Centro de Ciências Humanas e Naturais,
Universidade Federal do Espírito Santo. Av.
Fernando Ferrari, nº 514, Campus Universitário
Goiabeiras, Vitória, Espírito Santo, Brasil. Cep:
29075-910.

Introdução:

Desde o nascimento os indivíduos se relacionam com o mundo a partir de um conjunto organizado de conhecimentos e sentimentos que lhes permitem o desenvolvimento do sentido de pertencimento e, consequentemente, de categorização do outro. À medida que o desenvolvimento se processa, os nossos sentimentos vão sendo fortemente marcados por regras e normas sociais, definidas pelos grupos sociais aos quais reconhecemos pertencer. A dimensão afetiva assume, então, funções comunicativas e de sociabilidade, podendo favorecer o afastamento ou a aproximação entre os grupos e as pessoas (Leite, 1999).
Carvalho, Machado e Suyama (2002) argumentam que o desenvolvimento do ser humano ocorre “através do confronto de ações, emoções, motivações e significados” (p. 47), sendo este um importante processo de construção do indivíduo, bem como das práticas sociais por ele vivenciadas, posto que a própria rede de interações é parte da rede social simbólica, constituída em um contexto histórico determinado, caracterizado por elementos culturais, econômicos, políticos e ideológicos. Neste contexto se organizam os valores atribuídos aos diferentes grupos sociais, bem como o medo de determinados grupos humanos. Glassner (2003) informa que o medo na atualidade envolve um processo de manipulação cuja trama esconde o interesse econômico na obtenção de lucro com determinadas formas de medos e insegurança, que são alimentadas nos mais diversos veículos de comunicação de massa. Vivemos, assim, entre a difusão de uma cultura do medo, um sentimento individual e socialmente partilhado, referenciado por objetos sociais que são oferecidos às nossas relações cotidianas já interpretados e revestidos de uma ideologia que contribui para a discriminação (Fiorin, 2004).

Martins (2004) fornece elementos importantes para a compreensão de como esse processo se organiza na vida cotidiana dos indivíduos. O autor explica que o sentimento de medo está ligado à nossa relação com eventos futuros, preparando-nos para fugir de um perigo que pode ser real ou imaginário:

“uma espécie de aviso da possibilidade de alguma ameaça ao organismo” (p. 55). À medida que nos desenvolvemos vamos aprendendo a identificar e fugir dessas situações potencialmente perigosas, sendo esse aprendizado diferente de sociedade para sociedade, cultura para cultura e, até mesmo, de indivíduo para indivíduo. Como destaca Leite (1999), os sentimentos atendem a uma necessidade do organismo, refletindo “as exigências, as normas e valores historicamente acumulados e assimilados pelo homem individualmente” (p. 96). Há, portanto, um compartilhamento individual dessa estrutura simbólica com a qual dialogamos cotidianamente,
em um processo de assimilação ativa, rejeitando e incorporando os conteúdos imagéticos que nos permitirão nos reconhecer como indivíduos – frutos de um conjunto de relações sociais, orientadas pelos diferentes grupos de que fazemos parte, nos quais tecemos, incessantemente, a nossa identidade social.

É neste sentido que Walton (2007) destaca que até mesmo um simples desconforto em relação aos hábitos do vizinho do lado pode passar de um ato inocente para uma ideologia de amargura e conflito. Não podemos nos esquecer, contudo, que a própria história da humanidade é uma história de conflitos, contada pelos rastros do confronto entre grupos diversos em diferentes épocas, confronto que visa criar e manter espaços in-group (Funari, 2006). Embora tais conflitos possam ter motivações político-econômicas, são, sobretudo, processos simbólicos que ocorrem no contexto políticoideológico. Em síntese, nos constituímos em um processo no qual o medo, ao estabelecer fronteiras entre os grupos sociais, alimenta determinados estereótipos e orienta práticas intergrupais. Delumeau (2007) esclarece:

A raiz disso se encontra na apreensão provocada entre pessoas que não se conhecem, ou que se conhecem mal, que vêm de fora, que não se parecem conosco e que, sobretudo, não vivem da mesma maneira que vivemos. Falam uma outra língua e têm códigos que não compreendemos. Têm costumes, comportamentos, práticas culturais que diferem das nossas, não se vestem como nós, não comem como nós, têm religião, cerimônias e ritos cujo significado nos escapa. Por todas essas razões, eles nos assustam e somos tentados a tomá-los como bodes expiatórios em caso de perigo. Se uma desgraça acontece a uma coletividade, é por causa do estrangeiro. (p. 46)

A importante questão que decorre deste processo é o uso ideológico que dele se faz, uma vez que a profusão de estereótipos e práticas associadas a determinados grupos sociais concorrem para a construção de grupos depositários reforçando a manutenção de representações marginais e concretizando a identidade como ideologia separatista (Sawaia, 2001). É a partir desta lógica que aprendemos a sentir medo de determinados grupos de pessoas, lugares, ideologias e, por conseguinte, a agir e a avaliar negativamente esse “outro”, marcando nosso próprio espaço identitário. Esta parece ser a condição de um grupo milenar, que fez da exclusão itinerante uma cultura de liberdade: os ciganos.

Univers itas Psychologica V. 10 No. 3 septiembre-diciembre 2011

EDUCAÇÃO E SAÚDE = DIREITO E RESPEITO

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