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sexta-feira, 9 de maio de 2014

SAÚDE DOS POVOS CIGANS - 0S CIGANOS: FRONTEIRAS CULTURAIS E SISTEMA DE SAÚDE - PARTE I



0S CIGANOS: FRONTEIRAS CULTURAIS E SISTEMA DE SAÚDE.
Mônica Oliveira da Silva[1]


Introdução.
A cultura dos grupos chamados “ciganos”, principalmente no que se refere à saúde, é pouco conhecida. Uma busca nas principais bases de dados on-line (Lilacs, Cielo, PubMed) revela que muito pouco se tem publicado neste sentido, assim como são poucos os dados epidemiológicos ou registros das suas necessidades assistenciais. A maioria dos trabalhos mais recentes têm tratado de desordens genéticas.
No Brasil, nem sequer existem dados populacionais concretos: qual a população cigana do país, quais grupos aqui vivem e onde, se predominantemente nômades ou sedentários, etc. E aqui cabe informar que pelo menos três grandes grupos são chamados indistintamente ciganos: os Rom(a), que são oriundos principalmente dos Bálcãs e Europa Central, os Calón, da Península Ibérica, e os Sinti, presentes principalmente na Alemanha, Itália e França, além de vários subgrupos. Esses grupos não seguem necessariamente as mesmas tradições. A cultura descrita como “cigana” é, de modo geral, na literatura encontrada, aquela característica dos Rom (1-3).
Entre as principais orientações propostas pela Declaração Universal sobre Diversidade Cultural da UNESCO (2001) encontra-se: “3-Favorecer o intercâmbio de conhecimento e de práticas recomendáveis em matéria de pluralismo cultural com vistas a facilitar, em sociedades diversificadas, a inclusão e a participação de pessoas e de grupos que procedem de horizontes culturais variados”(4).
Neste sentido, diante do óbvio desconhecimento que temos da(s) cultura(s) dos grupos ciganos e diante dos problemas derivados deste fato que possam repercutir na área de saúde, surgiu o interesse e a necessidade de se conhecer um pouco melhor sobre a população cigana que procura o Hospital de Clínicas de Porto Alegre, suas características, necessidades e dificuldades, visando a possibilidade de melhorar a interação transcultural, fundamental em todo o processo de assistência à saúde.
Cultura e saúde
De modo geral é descrita uma relação estreita entre conduta moral e saúde, indivíduo e grupo. Entre os ciganos há um sistema de regras e normas de conduta que mantêm a força cultural e social do grupo e os separa da sociedade não-cigana. Envolve religiosidade, tabus, rituais de passagem (nascimentos, casamentos, mortes), entre outros costumes (5).
A primeira e principal obrigação de um cigano é o respeito a sua família imediata, depois estendida ao clã. Pertencer a um grupo parental é o fundamento do reconhecimento de uma pessoa como membro de direito dentro da comunidade, pois a organização social cigana se baseia em estrutura a  partir das relações de parentesco, fundamentada em eixos classificatórios de status: sexo e grupo etário (6).
A importância da família acentua-se numa situação de contato misto[2] onde está presente a agravante de abalo emocional e de necessitar da ajuda de uma outra cultura. Este é um ponto que deve ser observado e tratado com muito cuidado pelos profissionais de saúde

Construção cultural sobre saúde e doença

Luíza Silva comenta que os ciganos por ela estudados têm uma “racionalidade não-biomédica no entendimento do corpo”. Para a autora, que vê a saúde como um importante significante cultural, os não-ciganos têm uma relação de dependência para com a medicina que não está presente na cultura cigana: “A distância em relação a este modo de vida é uma das facetas daquilo que consiste a exclusão cultural da população cigana”(8)
A percepção sobre saúde e doença parece estar estreitamente relacionada com certos fatores como:
- Boa e má sorte: certas cores, números, comidas  e muitas ações diárias são classificadas como auspiciosas ou não. Seguindo essa linha uma pessoa gorda, por exemplo, pode ser vista como de boa sorte e, portanto, saudável (9;10).
- Pureza e impureza (marimé). Conceituados pelo código moral que lhes é próprio, certos tabus constantemente relatados por pesquisadores dizem respeito ao que é “puro” e “impuro”. Esse código classifica coisas, comportamentos, pessoas e animais como impuros, maculados ou desonrados, definindo formatos e fronteiras do seu universo natural e espiritual, interação social, funções judiciais e muitos outros ritos (10-13). Costumam ser citados como impuros: a metade inferior do corpo, mulheres no período menstrual, período pós-parto e cadáveres (9;13;14). Nem todo sangue é poluído. O sangue da corrente circulatória é limpo, pois é fonte de vida e vitalidade, e a cor vermelha é associada à boa sorte e felicidade (10;12).
A repercussão na saúde pode ser ampla. É referido, por exemplo, que por causa do código de pureza as mulheres costumam negligenciar exames ginecológicos a menos que seja claramente explicado que o procedimento é essencial para seu bem estar, sendo que a gravidez não é habitualmente motivo de consulta médica. Nesse sentido alguns

pesquisadores observam uma precária comunicação entre profissionais da área de saúde e mulheres Rom (9;15;16). Numa pesquisa que envolveu 450 ciganos Calón em Souza/PB, Moonen verificou, entretanto, que todas as gestantes entrevistadas declararam fazer o pré-natal sem, contudo, especificarem a periodicidade (17).
Um estado de poluição temporário ou facilmente reversível (sujeira), algumas vezes chamado de “melalo”, estaria mais ligado ao conceito não-cigano de higiene (9). Segundo Moonen  o código de pureza não parece ser seguido por todos os grupos  Rom e nem pelos Calón do Nordeste do Brasil (18). Sutherland  afirma que “nem todos os ciganos do mundo usam o termo “marimé” mas todos os grupos para os quais dados etnográficos detalhados estão disponíveis têm algum termo que indica uma “condição poluída”(10). Nos estudos sobre ciganos e sistema de saúde em Portugal, Silva et al. não cita em momento nenhum o “marimé”(16), mas segundo informação pessoal da autora, “o código de conduta dos ciganos de Portugal se pauta pelo valor da pureza enraizado no conceito de 'marimé' com o qual associa as atitudes face ao hospital”(19).
Os processos de doença e cura parecem envolver, portanto, mais que simples funções fisiológicas estando estreitamente associados ao comportamento individual, ao comportamento social perante o grupo e ao destino. Isto inclui também atitudes com relação aos mortos e aos espíritos dos mortos (9).
Este é um ponto importante: uma vez que saúde /doença não é um assunto que diga respeito apenas ao indivíduo mas a um problema social, as famílias têm a necessidade de ficar unidas quando alguém está doente, o que, segundo Sutherland, é um forte valor da cultura cigana (9;10).
As fronteiras culturais podem ser tão delimitadas que é relatado para ciganos Rom dos EUA, por exemplo, a existência de uma distinção entre doenças originárias do mundo não cigano e aquelas que são parte exclusiva do seu próprio meio, de tal modo que as primeiras devem ser curadas por       médicos não-ciganos. Mas aquelas de origem cigana devem ser curadas por membros da comunidade que têm o conhecimento das práticas de cura e dos espíritos. Por acreditarem se tratar de doenças diferentes os dois processos de cura não tendem a entrar em conflito (9;10).

Status de Saúde
Alguns tópicos comumente citados por autores referentes ao status de saúde de comunidades ciganas são:
- Fatores nutricionais: A dieta é rica em gorduras animais e alto consumo de sal e açúcar , pimenta, alho, cebolas, café  e também de bebidas alcoólicas (20;21,27). Alguns ciganos consideram a obesidade como sinônimo de poder e boa sorte (21); também são citados altos índices de tabagismo (20).
- Grau de escolaridade : em geral baixo, principalmente entre as mulheres. Pode estar relacionado com o fato de os grupos serem itinerantes ou sedentários (20);
- Imunização insuficiente: é alto o percentual de crianças não vacinadas, bem como baixa adesão aos planos de vacinação. A adesão a práticas de saúde preventiva também parece ser precária. As consultas pediátricas de rotina não são cumpridas A vacinação infantil apresenta índices bastante deficientes de continuidade (vacinação incompleta) além de taxas significativas de ausência completa de imunização (22-24);
- Alto índice de patologias degenerativas:  aparecem mais cedo na população cigana adulta (entre 35 e 45 anos) e com uma maior incidência que na população majoritária (20).
- Risco Genético: A endogamia ainda é apontada como um fenômeno comum entre os ciganos (25) e diversos autores têm publicado sobre desordens genéticas e mal-formações congênitas, registradas em diferentes populações ciganas.
Certo é que as práticas e relações entre as duas culturas distintas –  cigana e não-cigana - a forma como um cigano se relaciona com seu grupo e este grupo com a nossa sociedade, têm características que muitas vezes conflitam com as normas hospitalares e dificultam o atendimento, gerando problemas de comunicação e compreensão.
     
Atendimento Médico e Hospitalização
É relatado que muitos ciganos só procuram hospitais diante de um sério risco de morte por ser um lugar hostil, muito próximo a um estado de exílio de sua própria sociedade. Há indícios que o tempo de internação seja menor que a média geral porque a prolongada ocupação de lugares não-ciganos significa poluição (marimé) (9;13;14;16)
O ambiente hospitalar, principalmente em se tratando de hospitais de grande porte que atendem a populações bastante heterogêneas, é propício a contatos mistos. Os grupos e/ou indivíduos envolvidos nestas situações podem funcionar uns aos outros como estranhos morais[3] (26).
Não raro nos deparamos com relatos referindo dificuldades de entendimento entre pacientes ciganos, seus familiares e equipe de saúde em casos de internações hospitalares.
Goffman, ao tratar de situações de contatos mistos envolvendo um grupo estigmatizado socialmente, coloca que “em lugar de retrair-se defensivamente, o indivíduo estigmatizado pode tentar estabelecer contatos mistos mediante agressividades. Para este autor,”situações mistas como esta tendem a gerar ansiedade, um conjunto de características que ele chama de “patologia da interação”(7).
Para Luíza Silva, “a separação social (habitacional, profissional e educativa no sentido de escolarizada) dos ciganos não se limita a criar barreiras à acessibilidade e à assimilação da informação vulgarizada de conhecimentos de medicina (...) mas determina sua desadequação, freqüentemente referida pelos profissionais nas interações inter-culturais: insubmissão às regras organizacionais, rebeldia face ao pressuposto de confiança nas orientações terapêuticas, não acatamento das instruções médicas.” O resultado disto, ainda segundo a autora, é “a percepção de um comportamento ameaçador e provocatório por parte da instituição que vem a reforçar o preconceito que justifica o estigma e gera, do lado dos ciganos, um sentimento discriminatório”(8).     
   O quanto somos suscetíveis frente à diversidade cultural e qual a nossa capacidade de promover uma dinâmica assistencial adequada a esta diversidade é designado por Abreu de competência cultural. Para este autor, o desenvolvimento de competências culturais é extensivo não só a todo o processo de assistência mas abrange todas as áreas  de resposta humana (33).
No caso de internações hospitalares, um dos pontos de conflito é o  fato de a família querer estar presente junto ao parente internado, o que contraria regras de visita. Por ser um evento de importância social, quando um parente está doente, eles vão ao hospital em grande número e às vezes acampam nos arredores (13;14;16;).
A importância da família já foi antes abordada e cabe ressaltar também a importância dos mais velhos. Vivian & Dundes ressaltam que “A hierarquia familiar de idade e sexo  deve ser observada e respeitada pela equipe de saúde.  Sobrepor-se à importância dos homens  mais velhos pode coibir a cooperação da família com o tratamento. O mais velho da família pode também servir como o interlocutor entre a equipe e familiares. Para estes autores “A família tem papel fundamental em prover suporte emocional e a ajudar na situação de afastamento social. O número de familiares aumenta com o agravamento da situação e observa-se questionamentos sobre cada detalhe do tratamento dispensado. (29).  
Também não é raro encontrarmos indicações de que alimentação hospitalar é sistematicamente recusada devido as regras do código de pureza (a alimentação hospitalar seria considerada marimé).
As técnicas invasivas do corpo – injeções vacinas e intervenções cirúrgicas – são particularmente assustadoras, aparentemente vivenciadas como contaminadoras do modo de vida impuro dos não-ciganos (13;16;30). Os procedimentos cirúrgicos são muito temidos porque envolvem cortar uma pessoa e principalmente quando anestesia geral é necessária (12;14). Ryczac et al. menciona que os ciganos Rom têm especial receio de procedimentos cirúrgicos que requerem anestesia geral porque acreditam que a pessoa sob anestesia geral passa por uma “pequena morte” e, para a família, reunir-se ao redor da pessoa que sai do efeito da anestesia geral é especialmente importante (12) .
Contudo há pelo menos uma situação em que a hospitalização é percebida sob outra ótica: Os nascimentos. Entre as comunidades que seguem o código de pureza os partos normalmente são realizados nos hospitais para evitar a contaminação da casa (9;11).
Para os ciganos a hospitalização por qualquer motivo que não seja um parto só pode significar no mínimo uma cirurgia, senão a morte. Essa situação também pode causar conflitos com o sistema hospitalar, pois é relatado que, quando um indivíduo do grupo está próximo à morte, todos os parentes são avisados por mais distantes que estejam. Todos os parentes que puderem comparecer devem estar ao lado do leito daquele cuja vida está próxima ao fim, tanto para mostrar solidariedade à família quanto para obter perdão por qualquer ato prejudicial que possam ter cometido no passado; parentes e amigos devem ficar ao redor de quem está à beira da morte dia e noite. O doente nunca deve ser deixado sozinho, não só por compaixão mas também por receio de provocar rancor no enfermo, e não deve morrer em sua residência /tenda habitual (12;13;31). Stewart refere que para os Rom o momento da morte é aquele de cessação do fluxo sangüíneo: “em outras palavras, a atividade do dji”, termo relacionado com djilo (coração), godji (mente), djivel (vida).  O  lindra ( alma) deixa então o corpo e então se iniciam os rituais fúnebres (32).
Segundo Engelhardt, estranhos morais precisam resolver controvérsias por meio do desenvolvimento de um acordo comum que ofereça estratégias de entendimento, meios de resolução das controvérsias(26). É importante identificar o alcance das dificuldades. Mais ainda, para Abreu é fundamental a aceitação da diversidade e a utilização das diferenças como estratégia de intervenção. Por exemplo, os profissionais de saúde podem se valer do suporte familiar como ajuda durante o período de acompanhamento do tratamento.
Assim, Wetzel  relata que o diálogo adequado por parte dos profissionais de saúde com pacientes ciganos e seus familiares torna suas necessidades culturais particulares mais facilmente compreensíveis (28). A compreensão mútua gera vínculo de confiança que minimiza eventuais conflitos e deve ajudar a aumentar a adesão aos tratamentos propostos. Os ciganos respeitam a autoridade de seus familiares, notadamente os homens mais velhos, e são ávidos por aprenderem sobre seus próprio tratamento e de seus parentes e têm uma ampla rede de suporte familiar. Esses são fatores, quando observados e respeitados, podem ser utilizados em prol do tratamento nos casos de atendimentos hospitalares. Nesse sentido Sutherland e Wetzel sugerem que os profissionais de saúde devem:
- Estar atentos ao fato de que parentes mais velhos têm importante papel no processo de tomada de decisão do paciente e, portanto, devem ser identificados, respeitados e incluídos nesse processo.
- Estabelecer clara comunicação, explicando o tratamento e os procedimentos pelos quais o paciente deve passar, excluindo termos técnicos; deve-se perguntar se há algo que vá contra seus valores culturais, suas crenças e religiosidade.
- Ler as instruções importantes, particularmente sobre medicação ingerida. Cabe aqui observar que os diferentes grupos ciganos falam dialetos próprios, que não envolve escrita, mas todos entendem o idioma da população majoritária do país onde vivem ainda que alguns sejam apenas semi-alfabetizados.
- Permitir que alguns parentes fiquem no quarto com o paciente numa base de rotatividade e ter atenção especial em caso de falecimento do paciente(10, 14, 28).
A família é a base da sociedade Rom, Sinti e Calón e tudo o que envolve separação de seus membros é evitado. A percepção da hospitalização é a de um ambiente impuro onde sua família pode vir a ficar separada contrariando seus costumes. Como deixa claro Fernanda Reis (Sec. Diocesano de Lisboa, 1992): “(...) Mas o que realmente os faz sofrer é a separação dos seus: o hospital e a prisão são pedaços da morte, pois cortam com a vida que amam, com o mundo em que se reconhecem – o do seu povo, o da família cigana”.

A experiência do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
De modo informal, no Brasil são referidos os mesmos conflitos culturais durante os atendimentos hospitalares a pacientes ciganos que encontramos descritos na literatura estrangeira. O Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) tem sido procurado por membros da comunidade cigana da Grande Porto Alegre, tanto em urgências e partos quanto em seguimento de tratamentos.
  Entre os anos de 2004 e 2006 foi realizado no HCPA, um estudo com objetivo de conhecer aspectos da cultura cigana relacionada à saúde com foco na hospitalização, a fim de prover informações a profissionais de saúde que esclareçam eventuais conflitos culturais nesta situação de assistência à saúde.
Delineado para ser um estudo de grupo observacional e exploratório, com uma amostragem por conveniência e intencional, foram incluídas duas famílias ciganas que freqüentaram o HCPA neste período, sendo que com uma delas o contato foi significativamente maior. Esta família foi acompanhada ao longo dos dois anos citados, durante o seguimento de tratamento de câncer em 4 parentes próximos, dois adultos e duas crianças. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição e os principais indivíduos incluídos na pesquisa tinham conhecimento e aceitaram participar do estudo (algumas informações foram obtidas pela análise de prontuários e não houve contato com os pacientes; neste caso foi assinado um termo de compromisso para uso de dados).
Ao longo deste período, além da análise de prontuários, utilizou-se o recurso de observação aberta, participante, e se travou um relacionamento de proximidade com membros–chave, principalmente da família cujo acompanhamento dos tratamentos foi mais longo. Foi basicamente através desta proximidade que foi obtida a maioria dos dados resultantes do estudo, numa interação que serve pra espelhar a “autoridade do acordo daqueles que decidem colaborar” (26). Geralmente as informações surgiram em conversas informais. A tentativa de formalizar estas conversas através de entrevistas semi-estruturadas mostrou-se menos eficaz e mesmo pessoas com as quais já havia sido travada uma relação mais próxima sentiram-se claramente intimidadas pelo processo formal[4].  Esta dificuldade independeu do gênero: tanto homens como mulheres se tornavam mais “fechados” diante da formalização da entrevista.
Todos os ciganos incluídos pertenciam ao grupo Rom (com famílias originárias do Leste Europeu) e eram nômades ou semi-nômades. A habitação mais comum constituia-se de barracas em acampamentos dentro das cidades, em espaços mistos (nos acampamentos residiam apenas ciganos mas muitos não-ciganos habitavam em casas nas vizinhanças e, não raro, uma não-cigana trabalhava em serviços domésticos para uma cigana) onde geralmente parentes residiam próximos. A ocupação principal dos homens era venda ambulante ou de carros (aqueles de melhor situação financeira). As mulheres trabalhavam com leitura de sorte e vendas, ajudando os maridos. A cultura cigana é basicamente verbal. Nenhuma das mulheres constatadas era alfabetizada[5] e os homens apresentavam baixo nível de escolaridade.  Os ciganos são bilíngües, dominando o idioma da população majoritária e usando entre eles o idioma característico do grupo a que pertencem (no caso, falavam o romani ou  romanês, próprio do grupo Rom).
Casamentos são eventos importantes. Os festejos duram três dias e o assunto, bem como tudo o que a ele se refere, foi motivo de várias conversas. Foram relatadas, por uma cigana com a qual se travou contato mais próximo, algumas peculiaridades neste sentido: Ainda é comum as mulheres de sua comunidade casarem-se cedo. Este é, contudo, um traço cultural que parece estar mudando. É dada grande importância à virgindade das moças, que traduz a honra da família, e muito valor aos filhos. O casamento entre parentes próximos ainda acontece, principalmente entre primos (ela própria era casada com um primo, bem como seu irmão). Mas foi observado que o grau de parentesco é difícil de ser identificado, uma vez que este critério parece estar mais fundamentado em laços afetivos que consangüíneos[6]. Alguns traços culturais parecem estar enfraquecendo e um exemplo é que foram relatados muitos casamentos mistos, entre ciganos e não-ciganas (“brasileiras” ou “gadje”). Esta possibilidade é aberta somente aos homens. As ciganas, se casarem com um não-cigano (“brasileiro”) não são consideradas mais como parte do grupo, passa a ser vista como “brasileira” (“não é mais como nós”, “nossa relação não é mais como antes, não há mais confiança”) e todos se afastam dela. Logo, filhos de ciganos casados com “brasileiras” são considerados ciganos.  Filhos de ciganas casadas com “brasileiros” não são considerados ciganos.
A construção cultural sobre saúde e doença:
As duas famílias que participaram do estudo buscaram atendimento no Hospital de Clínicas de Porto Alegre em situações de urgência. Foram ao todo cinco internações por câncer, quatro das quais de uma mesma família[7].
O caráter de urgência das internações nos remete a outro fenômeno (já refereido por outros autores): o de uma saúde preventiva precária associada a uma construção cultural sobre saúde e doença distintas da nossa. Como refere Luíza Silva, existe entre muitos grupos ciganos uma “racionalidade não-biomédica no entendimento do corpo relacionada à exclusão do conhecimento científico socialmente vulgarizado”. Para a autora, que vê a saúde como um significante de cultura, “os não-ciganos têm uma relação de dependência para com a medicina que não está presente na cultura cigana. A distância em relação a este modo de vida é uma das facetas daquilo que consiste a exclusão cultural da população cigana”(8).
A procura por atendimento médico é quase sempre motivada por algum sintoma mais agudo como dor incomum, sangramentos, edemas, perda de peso excessivas ou sintomas associados (entre outros), resultando nos atendimentos em caráter de urgência. A frase “não tem dor, está bem” é bastante comum e significa a não necessidade de atendimento médico, mesmo em situações de patologias crônicas que necessitam de acompanhamento periódico.
Foi observado também pouco conhecimento de alguns aspectos da saúde preventiva. Por exemplo, apareceu a crença de que crianças vacinadas não deveriam ter câncer e que o “teste do pezinho” teria a função de diagnosticar esta, e qualquer outra doença, em crianças logo no nascimento.

CONTINUA ....


[1] Bióloga; Núcleo Interdisciplinar de Bioética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, 2006. Email: delunares2003@yahoo.com.br  Agradecimentos: Sara: Cigana Rom que colaborou com este trabalho, exemplo importante da possibilidade de entendimento transcultural, compartilhando experiências e relatando aspectos da sua cultura. Através dos vínculos de confiança formados, vários passos neste trabalho foram possíveis. Sua contribuição foi fundamental! (Obs.: como é garantido anonimato aos sujeitos de pesquisa, omitimos o nome completo, apesar de tal divulgação ter sido autorizada pela mesma). José Roberto Goldim, Biólogo, doutor em Medicina, responsável pelo Núcleo Interdisciplinar de Bioética do Hospital de Clínicas de Porto Alegre: por ter acreditado neste trabalho e pela orientação, principalmente nos problemas éticos que surgiram em momentos de conflitos inter-culturais. Frans Moonen, Antropólogo (professor aposentado da UFPB): pelo apoio, críticas, sugestões e hospitalidade, colocando toda a bibliografia do Núcleo de Estudos Ciganos do Recife a minha disposição e compartilhando toda sua experiência teórica e prática com ciganos. Ana Cristina C. Bittelbrunn, Médica Geneticista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, Mestre em Psicologia Social e da Personalidade: pela força, apoio e incentivo, além do auxílio em pesquisa qualitativa.


[2] Goffman (p 23) designa de “contatos mistos” aqueles momentos em que estigmatizados e não-estigmatizados (“normais”) “se acham numa mesma situação social, ou seja, quando existe uma presença física imediata de ambos”(7)

[3] Estranhos morais são, na concepção de Engelhardt, pessoas que não compartilham premissas ou regras morais de evidência e inferência suficientes para resolver as controvérsias morais por meio de uma sadia argumentação racional ou que não têm um compromisso comum  com indivíduos  ou instituições dotados de autoridade para resolvê-las.


[4] Luíza Silva refere o mesmo tipo de problema: “Ainda que, de forma geral, a realização das entrevistas não tenha colocado problemas do ponto de vista da receptividade à entrevistadora e da disposição de colaborar, nela se descobriram dificuldades especiais no que respeita à comunicação entre entrevistada e entrevistadora”(8).

[5] Para evitar o contato com a cultura não-cigana e pelo medo de que as meninas ciganas, quando já maiores, possam se interessar pelos meninos não-ciganos (entre os quais o namoro é proibido), as meninas e moças não são incentivadas a freqüentar a escola. Não se percebeu em nenhum momento alguma manifestação das mulheres deste estudo no sentido de que integrar-se a alguma aspecto da nossa cultura - como ler e escrever –  lhes fizesse alguma falta.

CONTINUA ...

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